A data é esta, ela lembra-se. Lembra-se tanto que parece agora. Tem um diário. O seu diário tem páginas, lágrimas, socos nas paredes, sangue, cuspo. Não, não a corrijamos, não é saliva, é cuspo. Pois, nós não percebemos.
No seu diário também tem datas. E foi reler aquelas. Aquelas desta data e dos dias seguintes e dos dias anteriores. Foi reler para tentar perceber. Ele tinha dito: precisamos de um tempo. Não esperou resposta, evidentemente, não era uma proposta, a decisão era unilateral. Beijou-lhe a testa e foi viver o seu tempo. Nesse tempo em que ele foi viver e ela ficou a morrer, o homem foi-lhe dando conta de beijos. Hoje um beijo etilizado. Ontem um beijo límpido. Antes tinha sido um beijo de saudades. Depois foi um beijo sereno. Os que ele quis. A mulher não conseguiu perceber em que dia, em que beijo, ele entendeu que já não estavam juntos e se deitou noutra cama.
Escreveu o Oscar Wilde: Há sempre qualquer coisa de ridículo nas emoções das pessoas que deixámos de amar. Sim. Mas ainda assim ele mandava beijos. Etilizados, límpidos, serenos, saudosos. Beijos. Beijos como os dantes, como os de agora. Os de agora. Desta data. 
Nunca os teus beijos voltarão a ser como os sonhei. Nunca a tua boca voltará a ter na minha um sorriso límpido. As nuvens podem dissipar-se. O sol pode aquecer-nos. A chuva poderá lavar-nos. Mas os teus beijos. Os teus beijos não voltarão a ser como os sonhei.
Se pudesse, perguntar-te-ia baixinho, achas que a mesma boca que mente pode beijar?
Quando fechei os olhos, ontem, e vi a tua boca, vi-a chegando-se, sorridente, luminosa, clara, o sorriso desenhando-se num beijo. O beijo que eu sonhei.
Hoje, quando os fechei, estava escuro. Vi a tua boca, no escuro. Vi os teus lábios entreabrirem-se, moverem-se, e deles sair a mentira que temia.
Agora há dias com luz em que me lembro de quando chegavas sorridente e me beijavas. E há dias que são noites escuras em que a tua boca se retorce feia na mentira. Nos dias que são noites escuras, tu não sabes, mas volto a morrer um bocadinho. Tu não sabes, não poderias saber, mas nesses dias que são noites escuras o frio volta a entrar-me por dentro da pele, volta a gelar-me o sangue, a calar-me a voz, a voz com que te chamo nos dias claros, a voz com que te chamava antes, antes dos dias que são noites escuras. Nesses dias, os que são noites escuras, ainda me beijas. Mas eu abro os olhos e vejo-te. Vejo-te de fora. Eu, de fora, vendo-te a beijar, não a mim, que estou de fora, não é a minha boca que está na tua, que eu estou de fora a ver-te; a boca que tens na tua é cada uma das que quiseste enquanto a minha dormia. Agora sei que os teus beijos não voltarão a ser como os sonhei. Os teus beijos são agora um lago de águas turvas, de água que tu agitaste trazendo à tona o que deveria ter ficado no fundo.
Como posso agora ver o meu reflexo? Quem sou eu se não me vejo no espelho?

Zango-me com quê? Com qual das tuas mentiras me zango mais? Com qual das infidelidades? Com o quê de ti me zango mais? Com que parte de ti posso não me zangar?
Qual das tuas mentiras confronto primeiro? Qual a que primeiro tento vencer? Qual a que primeiro posso enterrar, enterrar viva, para que sofra?
Que imagem tenho que apagar primeiro dos meus olhos? Que frases apago primeiro dos meus ouvidos? Que carne te arranco para aplacar a minha dor?
Em que sorriso teu posso acreditar, em que orgasmo? Qual o orgasmo que te vou negar em troca dos que não me deste? Qual o sorriso em que cravarei as unhas para que morra nos teus lábios mentirosos? Que parte da minha alma me roubaste para que, tão zangada, ainda te ame?
Como me posso vingar se cada punhal que te cravo na carne faz sangrar a minha?

Estou zangada. Contigo. Porque sim. Porque agora que me traíste tudo em mim é mais difícil. Sorrir-te com olhos e corpo e boca como eu fazia. Beijar-te como se a minha língua tivesse nascido para a tua boca. Falar-te baixinho no suor da cama. Vir-me contigo, de olhos abertos. Deixar as palavras escorrerem como escorre em nós a água, ainda juntos no banho. Olhar para dentro dos teus olhos e ver como escurecem com a paixão e a tesão. Pôr-me bonita para ti. Saltar para o teu abraço sem medo de cair. Dizer-te que te amo. Acreditar quando dizes que me amas. Serenar quando chegas. Fazer planos para o dia seguinte. Mostrar-me. Dar-me inteira quando a tua boca engole o meu corpo. Dar-me inteira quando a minha boca engole o teu corpo. Deixar de estar zangada.

As perguntas cansam-me, baralham-me. Porquê? Porque é que o fizeste? Porque é que não me disseste que eu já não te bastava? Como? Como foi que conseguiste mentir-me? Como foi que me beijaste e fodeste, como foi que me sorriste enquanto me traías? Quando? Quando foi a primeira vez? Quando foi que achaste que não fazia mal, ou que eu merecia a traição, ou que nós não merecíamos a integridade? Quando foi que decidiste sozinho quebrar o acordo que em conjunto tínhamos firmado?
Estas perguntas, tantas, sempre as mesmas, atravessam-se à minha frente quando menos as espero. Quando o teu telefone te chama, quando os teus olhos me evitam ou se perdem longe, quando te procuro e não estás. Assaltam-me até quando me pões a mão dentro das tuas calças e duvido da musa da tua tesão.
É por isso.

Quando permiti que entrasses dentro de mim, eu a fingir que não ia dando pela coisa, tu a entrares devagarinho, quando te abri a porta de casa, quando desviei o lençol para que te enfiasses comigo na cama, quando te disse em que armário da cozinha guardava os copos, quando te mostrei o caminho mais directo para o meu orgasmo e quando te desenhei os atalhos para que te perdesses em voltas e reviravoltas dentro de mim, não podia adivinhar que me deixarias esta feia cicatriz no peito.
Nua, perante ti, vi um dia o punhal na tua mão, esse punhal que era a mentira que me tinhas contado. Disseste que não devia preocupar-me. Guardarias o punhal, não o usarias em mim. Devagar, deixei o ar sair do peito e baixei os braços, certa de que não precisaria de me defender.
A minha carne voltou a ser tua e os meus olhos iam deixando de espiar as tuas mãos, em busca do punhal. Acreditei, estava guardado, não o voltarias a empunhar.
Mentira, mentira, mentira. Mentiste-me qundo mo prometeste e mentiste depois, quando eu estava distraída e fui surpreendida pela dor aguda, finíssima, profunda do teu golpe. Mentiste quando mascaraste as evidências, mentiste enquanto pudeste. Eu acreditei enquanto pude.
Agora já não posso. Não posso acreditar-te mas, sei lá como, ainda consigo querer-te. Mas quero-te desta maneira magoada, quero-te zangada.
Toma-me assim.
"A explicação de Freud

Certo homem mentiu à mulher. Era uma mentira inocente, é certo. Mas não deixava de ser uma mentira. E por isso perdeu as chaves. Ou não as encontrou, uma vez que elas estiveram sempre debaixo do seu nariz, como se costuma dizer. Só depois de ter confessado à mulher que lhe tinha mentido encontrou as chaves.
Poderá parecer que o problema do homem era encontrar as chaves, mas o problema era ter mentido, e só depois de se libertar do verdadeiro problema, conseguiu resolver com sucesso o problema aparente: a perda das chaves.
Casos como estes existem muitos, e contam-se aos milhares, e mostram como a psicanálise pode ser muito útil."

texto vergonhosamente roubado ao meu amigo jctp
Na cama. Na cama, já despidos. Na cama tento que o que restou para eu poder dar, seja o bastante. Devagar, que a carne ainda dói.
A sua insistência vai-me sufocando. Calma, digo, sossega, peço, deixa a cola secar para unir bem os pedaços que partiste. Mas insiste como se não me ouvisse.
Fecho os olhos com força, com aquela força que nos livros é descrita como "cerro os olhos", mas eu digo que fecho os olhos porque cerrar pressupõe uma firmeza que já não tenho. Fecho os olhos e faço por não ver mais do que os nossos corpos naquela cama.
Devagar, parece que consigo. Solto os meus lábios dos dele para lhe dizer a frase que me apetece. De repente não posso. De repente a frase que calei é a mesma frase que ele disse a quem não podia ter dito, quando não podia ter dito. De repente é Jasão, e não outro, quem, em cima de mim, fode com urgência. Com tanta urgência que não percebe que me escorrem lágrimas de ira, que não percebe que nos meus punhos cerrados não guardo um orgasmo à espera de vez, mas sim uma revolta capaz de o estrangular.
Todavia não o faço. Não estendo as mãos para lhe apertar o pescoço traidor e mentiroso. Aperto a cona, isso sim. Aperto-a em torno dele e na minha boca cresce a grossa e acre saliva da vingança, da vingança de o fazer pagar na mesma moeda, de lhe ser infiel com ele mesmo.
Primeiro é a pancada forte nos olhos que nos cega. Depois voltamos a ver, não importa se vemos claro ou não, já distinguimos formas.
Foi nessa altura que me levantei. Que saí de casa, bem vestida, maquilhada, faminta, sedenta, gelada, artilhada para a caça. Foi nesse dia que voltei a ser uma das que já fui e, sem hesitar um só segundo, sem pensar em nada, escolhi o homem que deixaria que me seduzisse. Não foi difícil, eu estava ali para isso. Foi sexo, foda genuína, apenas foda. Exactamente. Essa primeira abriu o caminho a outras, tantas quantas quis. A essa, outras se seguiram. Em pouco menos de uma semana, no meu corpo não restava um só resquício do que era antes, do que tinha sido. Em duas semanas o meu corpo estava macerado, dorido, esgotado. E ainda assim continuei. Foram todas minhas, essas fodas que quis. Fodi para além de me esquecer porque ali estava. Já não importava porque ali estava. Já não sabia porque ali estava. Estava porque queria, fodia porque queria, voltava a foder porque queria.
Até que no meu corpo não sobrou nada, absolutamente nada, nada do que tinha sido.
O pior de uma infidelidade, o que é? As imagens que nos assaltam do que imaginamos que aconteceu? A frequência com que nos lembramos? As pequenas ruelas que sempre nos levam ao mesmo beco sem saída? A vontade de chorar? A vontade de gritar? De esmurrar sacos de areia? A névoa sobre os olhos que não nos permite ver qualquer caminho de saída? A mágoa por não poder voltar a acreditar? A ira por sabermos que essa infidelidade ensombrará o resto das nossas vidas, mesmo com outras pessoas, mesmo noutras circunstâncias? A revolta por vermos os nossos sentimentos definidos por actos alheios?
Diz-se que é assim com quase tudo: a primeira vez é a que custa mais, a partir daí a coisa banaliza-se. Trair, enganar, mentir, dissimular, não são excepções.
Depois da primeira vão-se os assaltos de consciência, "olhos que não vêem...". Depois da primeira, já não importa se é mais uma ou se são mais cem.
Já fui infiel em algumas relações mais estáveis que tive. Aconteceu sem consequências de maior e guardei na gaveta do esquecimento. Suponho que, eventualmente, chegaria a vez de ser eu a provar desse veneno. Quiseram os desígnios da vida estranha que vivemos, que isso viesse a acontecer pela mão do homem de quem mais gostei. Se é para ser traída, que o seja em grande, pois então.
E fui. Fui traída não só no desejo expresso a outras mulheres em jogos de sedução, não só nas flores enviadas a outras para não deixar morrer o flirt, não só na foda avulsa -e tudo isto, partindo do frágil pressuposto de que acabou por me dizer a verdade- mas, acima de tudo, na confiança. Um tiro tão certeiro na confiança que não vislumbro o dia em que a recuperarei. Porque eu acreditava. Porque me dizia, e eu acreditava, que a verdade seria sempre privilegiada. E eu acreditava que um dia chegaria ao pé de mim e me diria: "Apetece-me outra mulher." Que seria verdadeiro e que depois lidaríamos com isso.
Como se recupera uma confiança ferida de morte? Como se volta a acreditar? Durante quanto tempo nos podemos iludir, continuando, apesar de tudo, a relação, pensando que um dia isso será passado?
É possível recuperar a confiança perdida?
Por vezes aquilo que pensamos ser um exorcismo, mais não é do que entrarmos de peito feito no pântano onde nos afogaremos. Sem darmos conta, obviamente, porque estamos demasiado ocupados em procurar defeitos e falhas em todo o lado.
Outra vez o Shakespeare: guardar ressentimento é tomar veneno e esperar que outro morra. Ou quase; não espero que ninguém morra. A não ser os fantasmas que me apoquentam. Não, esses já estão mortos. Que desapareçam. Sem veneno nem ressentimentos. Que me deixem descansar.

A minha primeira vez não foi planeada. Aconteceu com um amigo de longa data com quem nunca me tinha lembrado sequer de fantasiar. De repente, tinha as suas mãos dentro das minhas calças, depois já tinha a minha boca no seu sexo, depois já o tinha a ele dentro de mim e as suas mãos cravadas na minha carne. Tinha a sua voz macia e quente a gravar nos meus ouvidos o desejo de mim, os anos passados com vontade de mim, tinha na minha boca agora a sua língua inquieta, os seus dentes brancos firmemente encostados aos meus, o seu sémen a encher-me por dentro, o meu corpo banhado no suor dourado da  vingança.
Vingança que se estendeu pela noite, quando voltei para os braços nada arrependidos de Jasão e neles me enlacei, rejuvenescida. Vingança que se tornou doce quando Jasão me fodia e eu tinha ainda o sémen de outro colado por dentro.
Amarga vingança.
Não há nada na vida, nenhuma dor, nenhuma desilusão, nenhuma esperança, nenhum amor, nenhum ódio, nada, que com o tempo não se modere.
Ao fim de um tempo, já conseguimos dormir de noite, já conseguimos sair para a rua de olhos pintados.
Dizem.
Um indício só passa a sê-lo quando, mais à frente, se associa a episódios semelhantes. Antes disso não é mais do que um episódio isolado, não há por que culpar quem não lhes dê a importância que deveriam ter.
Por isso já parei de dar palmadas na minha cabeça enquanto resmungo como fui burra.
As fissuras no vidro frágil sobre o qual caminhávamos estalaram, alargaram-se, deram de si, mostraram que por debaixo delas outros episódios se acumulavam. Não muitos, não vi muitos, uma vez mais vi apenas o que as coincidências e os azares me mostraram, uma vez mais nada procurei, nem sequer quando estes, mais estes, me mostraram a sua cara feia de mentira. Não de meia verdade, desta vez. Sim, perguntei. Ainda perguntei. Perguntei pedindo a verdade, fosse ela qual fosse. E ainda assim a resposta foi uma mentira. Não uma meia verdade sequer, uma mentira.
A taça já não transbordou. Partiu. Partiu-se. Partida em mil pedaços, cola-a tu com dois abraços, canta o poeta, mas sem saber que nos dias de verdade não há cola nos abraços.
De repente, tudo se põe em causa. Um indício posteriormente confirmado, ainda se releva, vá-se lá saber porquê. Os episódios seguintes, agravados com mentiras, são uma manta negra que se estende à nossa frente, que cobre tudo o que antes lá estava e sobre a qual já não se pode caminhar.
Nesse momento percebemos quão fina é a linha que separa a desilusão do amor.
Eu não sou perpicaz. Mas tenho azougue, como se diz lá na minha aldeia, e há coisas que me vêm parar no colo sem que eu as espere ou procure.
Esse primeiro sinal, esse que me permitiu saber dessa outra mulher e do seu nome, tendo sido um azar enorme para ele, que se enganou, deveria ter sido para mim, mais do que um soco no estômago, a luzinha amarela a piscar à minha frente.
Mas não. A gente acredita no que quer acreditar. E eu quis acreditar que afinal não tinha mesmo importância e que, tendo sido posta a descoberto essa metade de verdade, ela deixaria de existir. E assim deixei decorrer mais uns meses. Não foram pacíficos, não poderiam sê-lo, e foi raro o dia em que a frase apanhada por descuido não ficou presa nos meus ouvidos, a ressoar com eco de precipício.
Deixei-me envenenar por ela. Ia lançando setas embebidas nesse veneno despeitado e rancoroso e afinal quem ia morrendo era eu.
Passaram, então, meses. Meses turbulentos que não poderiam ter tido um desfecho feliz. A taça transbordou de ressentimento, mágoas, cansaço e quezílias. Já nada tinha importância, afinal. Esse primeiro indício, essa mulher que ele instalou no meio dos dois, o desafio que lhe fez, o que dela lhe pediu, já nada tinha importância. O que quer que fosse que tivéssemos sido os dois, tinha morrido. Essa mulher era de somenos importância.
Mas não se resiste facilmente a voltar ao lugar onde chegámos a ser felizes e voltámos um para casa do outro. Pisávamos um chão mais frágil do que nunca, começámos por andar devagar, mas depressa se descobriram as fissuras nesse vidro.
Havia um exercício que consistia em corrermos de olhos vendados para os braços de outra pessoa. Antes de nos colocarem a venda sabíamos quem nos seguraria de modo a evitar que batessemos na parede, sabíamos mais ou menos a distância a que essa pessoa estava, mais ou menos a meio da sala, sabíamos mais ou menos os passos que daríamos até que nos segurassem. Então punham-nos a venda. Puseram-me a venda. Eu corri. Dei meia dúzia de passos e parei: já me deviam ter detido. Retirei a venda e vi que a pessoa que me deveria ter detido se tinha afastado, estava mais distante, mas ainda assim, suficientemente perto para evitar que eu fosse contra a parede. Percebi o truque, percebi que podemos confiar, mesmo que, num primeiro assomo, pareça que não.
Todavia, fui enganada. Iam segurar-me, é certo, mas fazer-me sofrer no caminho. Exactamente como nesse primeiro indício, nesse claro sinal de que não podia confiar. E eu confiei. E a minha confiança foi traída.
Quando nos tiram o tapete que temos por debaixo dos pés e nos estatelamos no chão sem sequer percebermos o que aconteceu, voltamos a pôr lá os dois pés se nos disserem que afinal aquilo não foi nada? Deixamos que brinquem com a nossa alma que começou a morrer sem que dessemos por isso?
A mentira mata a alma. Não mata de uma vez, vai matando. Vai moendo, desgastando, roendo, minando, perfurando, roubando. No final, antes ainda de se dar por isso, a alma está morta.
Foi assim com o primeiro indício. A frase, o pedido, o desafio, esse primeiro indício que me gelou por dentro, que me enrouqueceu a voz quando perguntei o que era aquilo, quem era ela. A resposta não veio pronta. Rodopiou sobre si mesma, levantou vento a ver se os olhos se distraiam e só depois chegou. Essa resposta que chegou, não podendo já ser uma total mentira, foi uma meia verdade. Não dói menos por isso.
Não sei exactamente o que faz uma pessoa relevar uma mentira, uma traição, uma infidelidade. Põe-se-lhe uma camada de base por cima, daquela bem espessa com que disfarçamos as olheiras e finge-se que se segue em frente. A frase, o indício, esse é que é teimoso e não se vai embora de forma nenhuma. Finge-se que se acredita na meia verdade, quer-se acreditar na meia verdade, que ainda assim será menos violenta que a verdade completa, e segue-se para os dias seguintes, apertando os sapatos com a pedra lá dentro, mas não denunciando que dói.
Foi nesse dia, com esse pedido, esse desafio lançado a essa mulher, foi no dia em que lhe conheci o nome, foi nesse dia em que o meu peito se encolheu com a pancada seca, foi nesse dia que a minha alma começou a morrer. Eu é que ainda não sabia.
É impossível saber quantas vezes fui traída. Até à primeira vez em que o soube, diria que não tinha sido vez nenhuma. A gente confia por princípio. Até ao dia em que já não podemos confiar.
Da primeira vez que soube que fui traída doeu mais, muito mais do que um soco no estômago. Literalmente. A dor que se sente é física. A vertigem e a vontade de vomitar, a perda de força nos membros, a saliva acre e aguada na boca, tudo é físico.
Só soube dessa vez. E bastou. Bastou para saber como dói e bastou para pôr em causa todo o passado e todo o futuro. Bastou para deixar a confiança na casa de penhores de onde trouxe uma imensa amargura.