Diz-se que é assim com quase tudo: a primeira vez é a que custa mais, a partir daí a coisa banaliza-se. Trair, enganar, mentir, dissimular, não são excepções.
Depois da primeira vão-se os assaltos de consciência, "olhos que não vêem...". Depois da primeira, já não importa se é mais uma ou se são mais cem.
Já fui infiel em algumas relações mais estáveis que tive. Aconteceu sem consequências de maior e guardei na gaveta do esquecimento. Suponho que, eventualmente, chegaria a vez de ser eu a provar desse veneno. Quiseram os desígnios da vida estranha que vivemos, que isso viesse a acontecer pela mão do homem de quem mais gostei. Se é para ser traída, que o seja em grande, pois então.
E fui. Fui traída não só no desejo expresso a outras mulheres em jogos de sedução, não só nas flores enviadas a outras para não deixar morrer o flirt, não só na foda avulsa -e tudo isto, partindo do frágil pressuposto de que acabou por me dizer a verdade- mas, acima de tudo, na confiança. Um tiro tão certeiro na confiança que não vislumbro o dia em que a recuperarei. Porque eu acreditava. Porque me dizia, e eu acreditava, que a verdade seria sempre privilegiada. E eu acreditava que um dia chegaria ao pé de mim e me diria: "Apetece-me outra mulher." Que seria verdadeiro e que depois lidaríamos com isso.
Como se recupera uma confiança ferida de morte? Como se volta a acreditar? Durante quanto tempo nos podemos iludir, continuando, apesar de tudo, a relação, pensando que um dia isso será passado?
É possível recuperar a confiança perdida?