Eu não sou perpicaz. Mas tenho azougue, como se diz lá na minha aldeia, e há coisas que me vêm parar no colo sem que eu as espere ou procure.
Esse primeiro sinal, esse que me permitiu saber dessa outra mulher e do seu nome, tendo sido um azar enorme para ele, que se enganou, deveria ter sido para mim, mais do que um soco no estômago, a luzinha amarela a piscar à minha frente.
Mas não. A gente acredita no que quer acreditar. E eu quis acreditar que afinal não tinha mesmo importância e que, tendo sido posta a descoberto essa metade de verdade, ela deixaria de existir. E assim deixei decorrer mais uns meses. Não foram pacíficos, não poderiam sê-lo, e foi raro o dia em que a frase apanhada por descuido não ficou presa nos meus ouvidos, a ressoar com eco de precipício.
Deixei-me envenenar por ela. Ia lançando setas embebidas nesse veneno despeitado e rancoroso e afinal quem ia morrendo era eu.
Passaram, então, meses. Meses turbulentos que não poderiam ter tido um desfecho feliz. A taça transbordou de ressentimento, mágoas, cansaço e quezílias. Já nada tinha importância, afinal. Esse primeiro indício, essa mulher que ele instalou no meio dos dois, o desafio que lhe fez, o que dela lhe pediu, já nada tinha importância. O que quer que fosse que tivéssemos sido os dois, tinha morrido. Essa mulher era de somenos importância.
Mas não se resiste facilmente a voltar ao lugar onde chegámos a ser felizes e voltámos um para casa do outro. Pisávamos um chão mais frágil do que nunca, começámos por andar devagar, mas depressa se descobriram as fissuras nesse vidro.