Havia um exercício que consistia em corrermos de olhos vendados para os braços de outra pessoa. Antes de nos colocarem a venda sabíamos quem nos seguraria de modo a evitar que batessemos na parede, sabíamos mais ou menos a distância a que essa pessoa estava, mais ou menos a meio da sala, sabíamos mais ou menos os passos que daríamos até que nos segurassem. Então punham-nos a venda. Puseram-me a venda. Eu corri. Dei meia dúzia de passos e parei: já me deviam ter detido. Retirei a venda e vi que a pessoa que me deveria ter detido se tinha afastado, estava mais distante, mas ainda assim, suficientemente perto para evitar que eu fosse contra a parede. Percebi o truque, percebi que podemos confiar, mesmo que, num primeiro assomo, pareça que não.
Todavia, fui enganada. Iam segurar-me, é certo, mas fazer-me sofrer no caminho. Exactamente como nesse primeiro indício, nesse claro sinal de que não podia confiar. E eu confiei. E a minha confiança foi traída.
Quando nos tiram o tapete que temos por debaixo dos pés e nos estatelamos no chão sem sequer percebermos o que aconteceu, voltamos a pôr lá os dois pés se nos disserem que afinal aquilo não foi nada? Deixamos que brinquem com a nossa alma que começou a morrer sem que dessemos por isso?