A mentira mata a alma. Não mata de uma vez, vai matando. Vai moendo, desgastando, roendo, minando, perfurando, roubando. No final, antes ainda de se dar por isso, a alma está morta.
Foi assim com o primeiro indício. A frase, o pedido, o desafio, esse primeiro indício que me gelou por dentro, que me enrouqueceu a voz quando perguntei o que era aquilo, quem era ela. A resposta não veio pronta. Rodopiou sobre si mesma, levantou vento a ver se os olhos se distraiam e só depois chegou. Essa resposta que chegou, não podendo já ser uma total mentira, foi uma meia verdade. Não dói menos por isso.
Não sei exactamente o que faz uma pessoa relevar uma mentira, uma traição, uma infidelidade. Põe-se-lhe uma camada de base por cima, daquela bem espessa com que disfarçamos as olheiras e finge-se que se segue em frente. A frase, o indício, esse é que é teimoso e não se vai embora de forma nenhuma. Finge-se que se acredita na meia verdade, quer-se acreditar na meia verdade, que ainda assim será menos violenta que a verdade completa, e segue-se para os dias seguintes, apertando os sapatos com a pedra lá dentro, mas não denunciando que dói.
Foi nesse dia, com esse pedido, esse desafio lançado a essa mulher, foi no dia em que lhe conheci o nome, foi nesse dia em que o meu peito se encolheu com a pancada seca, foi nesse dia que a minha alma começou a morrer. Eu é que ainda não sabia.