Nunca os teus beijos voltarão a ser como os sonhei. Nunca a tua boca voltará a ter na minha um sorriso límpido. As nuvens podem dissipar-se. O sol pode aquecer-nos. A chuva poderá lavar-nos. Mas os teus beijos. Os teus beijos não voltarão a ser como os sonhei.
Se pudesse, perguntar-te-ia baixinho, achas que a mesma boca que mente pode beijar?
Quando fechei os olhos, ontem, e vi a tua boca, vi-a chegando-se, sorridente, luminosa, clara, o sorriso desenhando-se num beijo. O beijo que eu sonhei.
Hoje, quando os fechei, estava escuro. Vi a tua boca, no escuro. Vi os teus lábios entreabrirem-se, moverem-se, e deles sair a mentira que temia.
Agora há dias com luz em que me lembro de quando chegavas sorridente e me beijavas. E há dias que são noites escuras em que a tua boca se retorce feia na mentira. Nos dias que são noites escuras, tu não sabes, mas volto a morrer um bocadinho. Tu não sabes, não poderias saber, mas nesses dias que são noites escuras o frio volta a entrar-me por dentro da pele, volta a gelar-me o sangue, a calar-me a voz, a voz com que te chamo nos dias claros, a voz com que te chamava antes, antes dos dias que são noites escuras. Nesses dias, os que são noites escuras, ainda me beijas. Mas eu abro os olhos e vejo-te. Vejo-te de fora. Eu, de fora, vendo-te a beijar, não a mim, que estou de fora, não é a minha boca que está na tua, que eu estou de fora a ver-te; a boca que tens na tua é cada uma das que quiseste enquanto a minha dormia. Agora sei que os teus beijos não voltarão a ser como os sonhei. Os teus beijos são agora um lago de águas turvas, de água que tu agitaste trazendo à tona o que deveria ter ficado no fundo.
Como posso agora ver o meu reflexo? Quem sou eu se não me vejo no espelho?